Resenha: A Chegada

26/02/2024

Imagem do Google Imagens

O filme A Chegada do diretor Denis Villeneuve, lançado em 2016, é um longa-metragem baseado no conto de ficção científica "A história da sua vida" do autor Ted Chiang, que tem Louise Banks (Amy Adams), renomada linguista, como personagem central. A narrativa inicia quando doze naves extraterrestres pousam na Terra, sem nenhuma explicação, e Louise é contratada pelo governo americano para traduzir a língua alienígena.

Os aliens, denominados de heptapods, deixam que humanos adentrem suas naves a cada dezoito horas para tentar uma comunicação. Louise, juntamente com uma equipe de pesquisadores, começa a estudar a nova linguagem para descobrir o que os alienígenas querem no nosso planeta. O filme tem sido muito comentado em meios acadêmicos desde seu lançamento, e se mantém na lista de indicações para acadêmicos e pesquisadores de línguas, pois adota temas e teorias linguísticas como meio para exemplificar a forma que Louise faz suas traduções.

É explícito como a linguista faz uso de conhecimentos das áreas de linguística como semântica, semiótica e pragmática, para decifrar os logogramas, forma de comunicação dos heptapods. A equipe de Louise fragmenta esses logogramas em pequenas partes com a finalidade de encontrar padrões que possam ser associados e traduzidos para a linguagem humana. Essas cenas nos remetem à teoria de Saussure, pois Louise procura por signos.

Nos primeiros contatos dentro da nave, a linguista tenta ensinar algumas palavras aos heptapods, na esperança de que eles entendam primeiro o que é o indivíduo (eu, você e nós) na língua humana (que no filme é o Inglês), para então só mais tarde tentar uma abordagem do tipo "o que vocês querem na Terra?". Afinal, ela não sabia como era constituída a cognição desses seres, se eles saberiam o que era uma interrogação ou quais eram suas noções de sociedade.

Mais uma teoria linguística que o filme exemplifica de maneira marcante é o relativismo de Sapir-Whorf, que defende que língua e cognição estão interligadas, de maneira que o vocabulário e a estrutura da língua podem moldar a forma como o indivíduo entende o mundo. Esse exemplo se sustenta com o fato de que a personagem Louise, desde o começo do filme, começa a ter visões de seu futuro. As visões vão se intensificando à medida que ela aprende a língua dos heptapods. Isso se deve ao fato de que os alienígenas têm noções de tempo diferentes dos humanos. Louise descobre, através das pesquisas dos logogramas, que o tempo para eles é linear, não existe presente e futuro. Sendo assim, a partir de certo momento, a pesquisadora passa a ter a sua noção de tempo alterada, se assemelhando a cognição dos heptapods. Até o fim do filme, a linguista já sabe exatamente como será o restante de sua vida apenas por ter aprendido uma nova língua. Claro que isso se trata de ficção científica, não poderíamos ver o futuro apenas aprendendo outra língua, mas é uma explicação fundamentada na teoria Sapir-Whorf, com certeza.

No entanto, esses não são os únicos estudos linguísticos que a história de A Chegada aborda. Logo no começo do filme existe uma cena em que o personagem do físico quântico Ian Donnelly (Jeremy Renner) lê uma citação do livro de Louise onde ela diz "A língua é a base da civilização. É a cola que mantém um povo unido. É a primeira arma sacada em um conflito", o que é claramente uma visão da sociolinguística. Inclusive, essa frase é relembrada durante a trama quando a linguista fica em dúvida na tradução de uma expressão alienígena para a palavra "arma". Louise assume que a palavra pode significar o objeto "arma" ou "ferramenta". No filme essa dúvida traz grande confusão, o que reforça a questão sociolinguística, quando alguns países do oriente médio interpretam a tradução como uma ameaça aos seres humanos e tentam contra-atacar as naves usando explosivos.

Na minha visão, fica muito claro ao final do filme o que termo alienígena para "arma" significa. Os heptapods pedem para Louise "usar a arma". A arma é a língua deles. Eles querem o ensino dessa linguagem para que mais seres humanos, além de Louise, aprendam e passem a ter uma nova noção de tempo e universo a partir do conhecimento. É o exemplo da linguagem mudando a cognição. E parece, nas cenas finais, que a pesquisadora obedece ao pedido, pois faz inclusive a publicação de um livro sobre a linguagem heptapod.

O embasamento na sociolinguística foi o que mais me chamou a atenção durante todas as cenas de A Chegada. O longa-metragem fala do impacto que uma nova cultura pode ter sobre outra e como a sociedade lida com isso. Mostra que a linguagem tem tanto poder quanto uma arma, e o quanto uma palavra pode gerar efeitos positivos e/ou negativos no interlocutor, a ponto de influenciar suas atitudes. Esse é com certeza um filme mais que indicado, se não essencial, no currículo cultural da formação de professores de línguas e estudantes do audiovisual que querem conferir como seriam aplicadas as teorias linguísticas literalmente. Além de ser um filme com roteiro inteligente, é cativante. Também é uma boa opção para assistir com a família.

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